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charge cristã










Ano 2 - Nº 8
janeiro de 2006



Capa



Evangelho e cultura na cidade e na floresta

Muita gente se lembra das duas reportagens no “Fantástico”, programa de variedades veiculado pela Rede Globo de Televisão, sobre o caso de duas índias recém-nascidas na tribo Suruwahá, no Amazonas, que, por estarem doentes, deveriam ser sacrificadas, segundo o costume da tribo, mas que foram salvas pela intervenção de missionários da Jocum (Jovens com uma Missão) que trabalham com aquele povo.
  
   Tal ação acabou sendo duramente criticada por antropólogos e por representantes da Funai (Fundação Nacional do Índio). Eles dizem que a política indigenista do Estado brasileiro é manter o isolamento dessas comunidades para evitar danos ao equilíbrio cultural da etnia. No entanto, o que, num primeiro momento, parece ser apenas uma discussão sobre diferença cultural ganha outro status quando a vida de uma pessoa está em jogo.
  
   Segundo Bráulia Ribeiro, presidente da Jocum no Brasil, “a diferença cultural deve ser preservada e protegida, mas não a custo de vidas humanas. O primeiro direito que temos, porque Deus nos atribui valor, é o direito à vida”. A missionária afirma que sua posição é referendada por um decreto que entrou em vigor no dia 19 de abril de 2004 (Dia do Índio), de número 5.051 e que promulga a Convenção nº 169 da OIT sobre Povos Indígenas e Tribais.
  
   “Esses povos deverão ter o direito de conservar seus costumes e instituições próprias, desde que eles não sejam incompatíveis com os direitos humanos fundamentais definidos pelo sistema jurídico nacional, nem com os direitos humanos internacionalmente reconhecidos. Sempre que for necessário, deverão ser estabelecidos procedimentos para se solucionar os conflitos que possam surgir na aplicação deste princípio”, diz o artigo 8º, inciso número 2.
  
   Isolacionismo
   O professor de Antropologia da UNB (Universidade de Brasília) Cristhian da Silva diz que, antes da Constituição de 1988, a postura do governo em relação às populações indígenas não era isolacionista, mas “o princípio que governava as relações com essas comunidades era de que eles seriam assimilados e integrados à nossa sociedade. O que seria um processo quase que natural, espontâneo, mas que não se provou verdadeiro”.
  
   Para ele, essa postura mudou por pressão de movimentos sociais indígenas, de organizações não-governamentais e da comunidade acadêmica, “que pressionaram o governo a criar na Constituição o artigo 231, assegurando a diferença cultural e social dos povos indígenas”.
  
   A partir daí o Estado brasileiro reconheceu a permanência desses povos em territórios próprios. Ainda segundo Cristhian, essa é uma questão que, na verdade, “não é tanto uma idéia de isolamento ou de preservação, e sim de autonomia e de reconhecimento dos direitos indígenas”.
  
   Entretanto, o trabalho realizado com índios por instituições como a Jocum respeita as diferenças culturais. O missionário Edson Suzuki afirma que o trabalho missionário transcultural é muito criterioso: as pessoas envolvidas são “sensíveis e bem preparadas, estudam antropologia, lingüística e missiologia. Além disso, aprendem a respeitar a cultura, estudam a língua e sabem como comunicar o Evangelho de maneira culturalmente contextualizada”, o que na sua opinião não é prejudicial para uma cultura. “Existem experiências que mostram que o trabalho missionário até ajuda a manter a identidade tribal”, enfatiza o obreiro.
  
   Irmãzinhas de Jesus
   Um exemplo de intervenção positiva de grupos de missionários junto a comunidades indígenas é o das Irmãzinhas de Jesus. Três membros desta ordem católica realizaram um importante trabalho junto à tribo Tapirapé em Mato Grosso a partir da década de 1950. A comunidade indígena, que tinha cerca de 50 componentes naquela época, hoje tem cerca de 500 indivíduos.
  
   Segundo o professor Cristhian, “os tapirapés estavam sendo reduzidos por epidemias e violências, e os índios tinham esse costume de não ter mais do que dois filhos”. Com isso, os casais sacrificavam ou abandonavam as crianças indesejadas. No entanto, as Irmãzinhas de Jesus disseram não ao sacrifício e assumiram a responsabilidade de cuidar desses pequeninos. O antropólogo diz que, após algum tempo, “as crianças que seriam sacrificadas foram reabsorvidas pelo grupo” e aquela comunidade foi beneficiada.
  
   Direito à vida
   Segundo a Jocum, o trabalho realizado junto aos suruwahás respeita a diversidade cultural e os princípios legais, mas também se preocupa em refletir o amor de Cristo por estas pessoas. “Acreditamos que todo ser humano é igual diante de Deus e deve ser tratado desta forma pela lei. Que toda cultura reflete o caráter de Deus de alguma forma, mas que toda cultura também apresenta distorções. Que todo ser humano tem que ter acesso aos direitos garantidos por lei, independentemente da cor, da condição social ou da etnia. Que o direito à vida é inalienável e está acima do direito à diferença cultural. E que todo ser humano tem direito de receber todo e qualquer tipo de informação, para que possa tomar decisões conscientes. O isolamento de certas tribos, que alguns setores do governo defendem, fere o direito à cidadania dos povos indígenas”, declara o missionário Edson Suzuki.
  
   Na opinião do missionário da Jocum, o que deveria estar em questão não é a manutenção ou não do isolamento dos povos indígenas, mas “o problema central é o desrespeito ao direito à vida de crianças indígenas em nome da diversidade cultural”. Ele encerra afirmando que o que deveria estar sendo questionado pela sociedade é o fato de “crianças indígenas indesejadas – como deficientes, gêmeas e filhas de mães solteiras – estarem sendo mortas ou torturadas nas tribos, com a conivência dos órgãos públicos”.
  
   O cenário indígena brasileiro e a atuação missionária evangélica
   Nos últimos 500 anos o pensamento coletivo brasileiro não mudou a ponto de gerar uma diferença visível em termos de abordagem e interação com o indígena e sua sociedade. No cenário leigo o índio ainda é visto por alguns como selvagem, por vezes como herói, ignorante ou, ainda, como representante de uma cultura superior e pura. Poucos pararam para escutá-lo nos últimos cinco séculos, e havia muito a ser dito.
  
   No meio acadêmico, fala-se sobre a desmistificação da identidade indígena. Creio que precisamos primeiramente desmistificar a nós mesmos, repensar nossas expectativas em relação a essa sociedade com a qual convivemos por séculos sem compreendê-la, e passar a interpretá-la de forma igualitária na dignidade e respeitosa nas diferenças.
  
   Calcula-se que havia 1,5 milhão de indígenas no Brasil do século 16, os quais, irreparavelmente, somam hoje não mais de 350 mil. Infelizmente, essa realidade etnofágica vai muito além das estatísticas e das palavras, pois é composta por faces, vidas, histórias e culturas milenares, as quais têm sofrido ao longo dos séculos a devassa dos conquistadores, a forte imposição socioeconômica e perdas sociais tremendas. Permita-me redefinir os termos desta afirmação. Os conquistadores não são os outros. Somos nós.
   A sociedade indígena ainda vive hoje sob o perigo de extinção. Não necessariamente extinção populacional, mas igualmente severa, quando se perde língua, história, cultura e direito de ser diferente e pensar diferente convivendo em um território igual.
  
   Segundo Lévy-Strauss, a perda lingüística é um dos sinais de declínio de identidade étnica e decadência de uma nação. Ao observarmos tal sinal, percebemos quão desolador é o cenário. Michael Kraus afirma que 27% das línguas sul-americanas não são mais aprendidas pelas crianças. Isso significa que um número cada vez maior de crianças indígenas perde seu poder de comunicação a
   cada dia.
  
   Aryon Rodrigues estima que, na época da conquista, eram faladas 1.273 línguas, ou seja, perdemos 85% de nossa diversidade lingüística em 500 anos. Luciana Storto chama a atenção para o estado de Rondônia, onde 65% das línguas estão seriamente em perigo por não serem mais aprendidas pelas crianças e por terem um ínfimo número de falantes.
  
   Precisamos perceber que a perda lingüística está associada a perdas culturais complexas, como a transmissão do conhecimento, formas artísticas, tradições orais, perspectivas ontológicas e cosmológicas. No processo de transição, quando a língua materna cai em desuso, normalmente há o que podemos chamar de “geração perdida”: um vácuo cultural atinge uma geração inteira. Ou seja, no processo de perda lingüística e migração para o português, os grupos indígenas passam por um processo de adaptação quando já não têm mais fluência na língua materna nem aprenderam o suficiente o português para uma comunicação mais profunda. Tal processo em média não dura menos que três décadas. Esse é um momento de perigo, em que a identidade indígena é autoquestionada e muitos valores e, sobretudo, seu poder de comunicação e transmissão de conhecimento são perdidos. Perdem-se também os sonhos.
  
   Na tentativa de repensar a realidade de nossos irmãos indígenas, é preciso filtrar a informação sobre a atuação missionária evangélica em relação a eles. A contribuição evangélica, na tentativa de relacionamento com a sociedade indígena nacional, teve início com a influência holandesa no século 16 e permanece hoje representada por um grande número de organizações que tenta reduzir os prejuízos sofridos. Isso se traduz em um sem-número de biografias daqueles que deram a vida, na impossibilidade de darem mais, para minimizar alguns dos efeitos do extermínio social indígena de séculos.
  
   Dentro de um vasto universo de ações sociopolíticas percebemos que a força evangélica missionária se destacou especialmente em três áreas: preservação lingüística (com a grafia e conseqüente preservação de diversas línguas — e muito ainda está sendo feito); educação (tanto na língua materna, com forte destaque, quanto na educação formal em programas governamentais); e saúde (tanto de base, nas comunidades, quanto também organizacional, em clínicas e hospitais). Permita-me pontuar: o evangelho jamais será motivo de alienação social ou imposição de credo. É, ao contrário, motivação para uma contínua tentativa de se recuperar as perdas humanas nos segmentos mais sofridos.
  
   Ainda há muito a ser feito. É necessário caminhar.
  
   Ronaldo Lidório
   missionário durante 9 anos entre os Konkomba e os Chakali, no norte de Gana, na África, onde foi plantador de igrejas, tradutor bíblico e coordenador de programas sociais nas áreas de saúde e educação. Doutor em antropologia pela Royal London University e escritor. Atualmente desenvolve projetos de abordagem sociocultural na
   Amazônia brasileira




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